segunda-feira, 15 de março de 2010

Os homens da minha vida

Parte 1

São muitos. Eu gosto de homens, embora reconheça que a fabricação é falha, a conservação é cara e o retorno é insuficiente. Mas gosto. Não garanto tratar nem dos mais ilustres, nem mesmo dos mais gostosos, inteligentes ou duradouros. Mas passearei apenas com os mais memoráveis. Afinal, se estão aqui é porque me lembrei deles. Sobre esse assunto, então, poder-se-ia dizer como em Casablanca: reúna os suspeitos de sempre.

Dolphine. Ele é o cara. Tempestuoso e fora de época. Homem de mãos grossas e rápidas, pontaria exemplar, heroísmo físico, ele sempre atira pela frente. Um valente e seu código de honra. É doloroso vê-lo esgueirar-se na sombra em nome de um Nome que precisa ser instituído. E, das sombras, ele deixa a mulher ir-se. Um homem de surpreendente e silencioso sacrifício. Homem da minha vida pela sua solidão que tem meu nome gravado e ele não soube dizer. Melancólico amor o que devoto ao que se exime de ser feliz. Dolphine é Wayne e todos os seus rudes quase-heróis de coração tão terno e irônica forma de lidar com a morte. Intransigente. Másculo. Confiável. Não muito sagaz para as coisas do coração. Mas bom, na sua medida de bondade. Ele é capaz de matar, mas é capaz, também, de morrer. E o faz, vezes e vezes, pela coisa certa. Ele é o amor dos grandes embates, aquele que me carrega no colo, amor pra lembrar a vida toda, pra me gabar que teve um homão desses chorando e querendo.

Na leva dos homens que deixam a mulher ir-se, é claro que há o Rick. Sim, sempre teremos Paris, Casablanca e qualquer outro canto em que se possa beber um uísque e fumar. Mas, diferente de Dolphine/Wayne, ninguém, mas ninguém mesmo, vai pensar em um Rick/Bogart vivendo e morrendo sozinho depois que a loura parte com o Sr. Certo. Bogart, sozinho? Ora, não me faça rir. Deliciosamente cínico. Aliás, se não for incomodar ninguém, vou transcender de Rick para Bogart completo. Não por acaso ele era conhecido como o homem do século passado – gosto mesmo de coisas fora do tempo. Ele era um hedonista da mais fina lavra. Humor rápido e doloroso. Sim, eu poderia ser sua Baby, eu atenderia a todos os assovios. Porque é claro que ele sabe assoviar. Ele é o amor da sexta à noite, dos dias que se confundem com as noites e com os novos dias. Ele é o amor da palmada na bunda e do pega mais uma cerveja. Mas quando ele olha, ele realmente olha, e eu sei que sou especial e sexy e inteligente.

No quesito safadeza, oscilo entre Valmont e Tomas. Valmont sai na frente pelo charme de Malkovich e a parceria com a Marquesa. A beleza de se amar quem lhe constitui é que se pode enaltecer o que não se aceitaria. Mas, continuando. Recordo a primeira vez que o vi. Sua preparação para a beleza deixou minhas pernas meio bambas e a cabeça rodando. E quando ele andou e se recostou no sofá quase encostando a cabeça nos peitos da mulher, assim, como quem não quer nada, já querendo tudo, pronto, resolvido, eu dou, eu dou. Ele morre. Gosto de homens trágicos e ele só não fica perfeito porque, embora morra pela mulher certa, morre pensando que está morrendo pela outra. Os homens às vezes erram de lugar. Acontece. Valmont é o amor das noites insones, dos suspiros entrecortados, dos desejos de só dessa vez. Creio que no quesito só essa vez ele é insuperável. Aí tem Tomas que, de forma sabiamente dita pelo Kundera, ninguém sabe se é um romântico que age como devasso ou um devasso travestido de romântico. Interessa? O que interessa é que mesmo de longe, basta dizer: tire a roupa. E a gente tira. Tomas gosta de metáforas, ele sabe que é lá que o amor habita. E foge delas enquanto pode. Tomas conhece os desejos femininos, ele só desconhece o próprio desejo. Ou ainda, se desconhece no que deseja. Tomas é forte (e eu adoro homens fortes...), mas precisa tanto da mulher. Das mulheres. Isso me enternece. Tomas é o amante a ser redimido. Dói, demora, mas saber-se amada por ele é de uma tal alegria.

Aí tem os Corleones, claro. Amo vários. Posso? Como não amar a impetuosidade de Sonny (sem falar nos seus outros excessivos atributos tão afamados...)? Como não ansiar pela paciência, sagacidade e constância de Hagen (ele também um Corleone em tudo que interessa)? Como não desejar o desejo de Michael, sua inteligência, coragem e firmeza diante do que tem que ser? Mas o mais amado, o da vida toda, aquele por quem eu iria à missa todas as manhãs, é mesmo o Don. Alguém que consegue morrer dizendo “a vida é tão bonita” merece meu devotamento e admiração. Mas não é só isso. A aura de força, calor, entusiasmo. A certeza. A audácia. E a fala precisa. Homem não deve falar muito, mas quando fala tem que ser pra ser ouvido. Esse é uma amor sem poréns nem entretantos. Até porque o Don vem encorporado em Brando de quem eu já disse uma vez: Eu tinha boas intenções. Mas, convenhamos, é só olhar pra ele que as intenções boas se retiram apressadamente e ficam só as outras. Ele não é meu tipo. É o tipo de todas as mulheres.

Tipo meu, mesmo com a fama de mau hálito e tudo, é o Gable. Em tudo e por tudo eu arranjava jeito de ficar com ele. Aquele sorriso de canto de boca...ai, meus sais! A mais perfeita encarnação de semvergonhice com dedicação amorosa é Reth. Quem não gostaria de acordar de um pesadelo em Nova Orleans nos braços de Reth Butler? Eu quero, eu quero! E ser pedida em casamento no meio de um luto com a promessa de diversão (=sexo bom, muito bom)? Eu quero, eu quero! E feito objeto de luxo ser leiloada por ele apenas pelo prazer de chocar? De novo, de novo! Até a promessa de ter a cabeça espremida pra tirar o outro de dentro tem um desespero amoroso tocante. Gable é meu amor na noite escura, o amor que a gente só vê no quase depois e lamenta e chora.

Tem o Nino também. Não dá pra não aceitar, com ou sem casamento. O jeito que ele olha. Ai, pausa para suspiros. Um homem que sabe amar e sabe a quem amar. Uma raridade. Um homem que sabe que não há amor sem desejo e que sabe, também, o que há para além do desejo. Um homem que vê ontem, hoje e amanhã na mulher e ama tudo ao mesmo tempo agora. Um homem que ama a beleza, mas que vê beleza sempre na amada. Um homem que sabe elogiar. Eu amo esse homem simples, o homem do passa o sal, o homem de se andar de mãos dadas, de sair pra dançar, o homem do pijama de algodão, aquele que beija antes de escovar os dentes. O homem que escreve uma poesia pra mulher amada, mas no papel de embrulhar pregos. Nino é o amor das certezas, das noites bem dormidas, do almoço de domingo. E é, também, o amor da viagem inesquecível pelas ruas de qualquer lugar - mas de preferência que seja Roma...

Porque em Roma eu encontro e chamo Marcelo. E haja água espirrando! Tem também o Ross, quando eu quiser assentar a cabeça e formar família sem perder o senso de humor. E o Harry que sabe ser amigo, e qualquer Allen que é feio paca mas bem pode ser meu Sherazade, o Bond do Connery que faz a perna tremer com uma mera apresentação...Mas se for pra escolher só um, um mesmo (que dureza!), hoje fico com Mr. Darcy. Sem orgulho e sem preconceito.

Como só tenho direito a um post, é isso que tenho a dizer sobre esse assunto. Agora, se quiserem outras versões, partes 2 e 3, outras histórias...aí tem que mudar as regras, hehehe.

3 comentários:

Aline disse...

Eu não posso com você, bela Borboleta. Essa é a parte 1 do meu comentário! (Ainda estou na parte 1 da leitura da parte 1)

Lica disse...

Essa é gaiata, mendigando novos posts...

Danielle disse...

snif ou kkkkk? eis a questão
Não sei se as lágrimas correm de emoção pelo lindo texto ou se dou gargalhadas da humilhação da pessoa por posts.
obs: Não abandonei o blog é que o tema tem fervilhado em minha cabeça...