quarta-feira, 5 de maio de 2010

Dentro de mim tem você

Amores são águas doces
Paixões são águas salgadas
Queria que a vida fosse essas águas misturadas...
Faz um tempão que eu aprendi que o que me é mais intenso, próprio e íntimo, é o que é mais Outro, mais fora de mim. Dentro de mim, então, o mundo. Meu mundo. Um mundo de águas doces, porém não mansas, rios de corredeiras, cachoeiras, águas que vão esculpindo margens. Meus amores são assim: arrebatados. É com uma ternura tão profunda. É com uma tal felicidade que vivo que meus olhos marejam de pensar assim: vida. Um mundo de águas salgadas também, plácidas e perigosas no seu vai e vem hipnotizante. Ah, o ruído das águas do mar acalentam, consolam e enganam. No seu descanso o mar tem tempestades ensaiadas. Minhas paixões são assim: dissimuladas. É com uma loucura tão enraizada que vivo que meu corpo ensaia assim: morte. Águas doces e salgadas misturadas bem dentro de mim, tão dentro que saem em lágrima, suor, saliva, em sonho, desejo, tesão.

E foi assim pela vida
Navegando em tantas águas
Que mesmo as minhas feridas viraram ondas ou vagas...
Conhecer esse Outro que me diz quem sou às vezes dói. Às vezes corta. Às vezes a água que escorre é rubra e ferrosa e chamo de sangue com pudor de dizer eu. Mas navego essas dores, cortes e hemorragias de tal sorte e em tal companhia que a viagem se torna aprendizagem de si mesma, caminho e chegada; ondas que me levam mais além de mim, além do Outro, além delas próprias, que me levam a nenhum lugar que é todo o canto em que pretendo chegar.

Hoje eu lembro dos meus rios
Em mim mesma mergulhada
Águas que movem moinhos nunca são águas passadas
Carne e sonho de minhas águas. Memória de mim mesma, amores e paixões feito corpo, redemoinhos de vontade. Tempestade e calmaria. Imersa em mim eu sou tantas, sou as que fui, as que serei e sou até as que não quis ou não pude ser. Sou quem amou e quem deixou, quem quis e quem ficou pra trás. Sou quem se sabe no desconhecimento e na surpresa. Sou quem morre todo dia que vive e, em tal gozo, que morrer é só outro nome pra tempo. Sou quem lembra na pele.

Eu sou memória das águas. Eu sou memória das águas*.


* Memória das Águas é uma canção de Roberto Mendes e Jorge Pontual. Quanto ao Capinan, que ninguuuuééém disse que conhecia ou quis saber quem era, ele tem músicas belas como Ponteio e A Tua Boca, mas vale, vale mesmo, ouvir a Bethania cantando dele (atenção mulheres apaixonadas): Estranho Rapaz (para as que, além de apaixonadas, forem curiosas, está lá no Outras Borboletas)

3 comentários:

Lica disse...

"Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu.
Porque a vida só se dá pra quem se deu. Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não..."
Poetinha

Joie disse...

Após uma noite absolutamente doida, quando beijos não podem ser dados por questões óbvias e escusas ao mesmo tempo e a intimidade bate de frente com o desejo e a perturbação (como se os dois fossem um) não pude comentar este post. Estou começando a achar que sou a mais normal das criaturas.
Ao ler todos esses sentimentos com tanta intensidade e certeza, com o profundo e o a flor da pele em compasso com a vida, percebo que assim como tu, vou lembrar na pele.

Borboletas nos Olhos disse...

Ahá, nós todas aqui somos muito normais...e lembramos todas na pele.